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Minas, memória e café

Nasci mineira, no sul de Minas Gerais, especificamente. São Lourenço é a cidade, mas na certidão, no entanto, consta Carmo de Minas. Naquela época, a cidade da minha mãe não tinha uma maternidade boa mesmo, então fui pro município vizinho, uns 15 minutos de estrada, pra nascer. Tão logo voltei me registraram “carmense”, com muito orgulho.

Vivi lá até os três anos, se minha lembrança não falha. Minha primeira memória, no entanto, é da gente indo embora… Meu pai dirigindo um caminhão de mudança com nossos móveis pela exuberante Serra da Mantiqueira e, logo em seguida, chegando a Lorena, no Vale do Paraíba Paulista. Pode não ter sido exatamente assim que aconteceu, mas não confirmar essa história faz parte da graça da memória infantil, cheia de fragmentos, assim como o restante deste texto.

25 anos depois, além da mudança, as lembranças são das férias, ora de inverno, ora de verão, que passávamos na casa do Vô Dito, um senhor magro, moreno e envelhecido pelo sol; camisas ralas, calças, botas e chapéu. Não lembro se ele era pouco amoroso ou se eu, que nunca fui dada a afagos, não o “aproveitei” direito. Meu avô era um homem da roça, com toda a ignorância e sabedoria que isso pode representar.

Sua casa ficava numa vila que ele construiu para os filhos após vender o solar onde vivera com a Vó Ina depois que se mudou “para a cidade”. Tinha o alpendre, onde tomávamos sol pela manhã e conversávamos banalidades no fim do dia, o piso barulhento de madeira, os quartos que nos esperavam nas férias, a sala com os sofás mais desconfortáveis do mundo, mas que eram capazes de fazer meu avô adormecer em segundos, enquanto o Silvio Santos falava na TV sem parar. Tinha também a sala de jantar com o relógio de pêndulo e a cozinha com o fogão de lenha e os mantimentos em lata.

Do lado de fora, um terrenão (na minha memória ele aparece enorme), com uma casinha de madeira, eu acho, onde meu avô guardava aquilo que ele queria esquecer. Lembro que foi lá que minha mãe encontrou certa vez a foto do casamento dele com a Vó Ina. Foi muito bonito.

Ir para Minas era uma maratona. Embora fosse relativamente perto de onde eu morava, os acessos eram complicados e a gente nem tinha carro, era uma mobilete que meu pai pilotava inconsequentemente carregando meu irmão e eu num sanduíche entre ele e minha mãe. Íamos, então, de ônibus. Lembro-me da minha mãe com meu irmão pequeno no colo, depois com minha irmã, carregando aquele mundaréu de malas no trajeto Lorena-Cruzeiro-São Lourenço-Carmo de Minas, que parecia interminável.

Quando chegávamos, no entanto, era aquela festa. Os primos reunidos, a gente sujo de terra e os doces da “Venda do Argentino”, um senhor meio gordo, que vivia numa casa imensa ao lado de sua venda. Ele tinha olhos claros e na minha cabeça ele parecia sempre amável, embora seu “nome” hoje denuncie sua nacionalidade. Meus primos e eu vivíamos lá, marcando na conta do vô incontáveis garrafas de guaranazinho Mantiqueira, sanduíche de maria-mole com bolacha de maisena, suspiro cor de rosa e pirulitos em forma de chupeta. As cáries agradeciam.

Em Carmo de Minas fazíamos festa junina improvisada e aniversários, brincávamos na lama e nos machucávamos. Nesse meu resgate, escrito com ajuda do álbum de fotografias, lembro-me de alguns amigos, das visitas ao Parque das Águas em São Lourenço e a Baipendi, municípios vizinhos, das procissões da Semana Santa, da mulher que vivia numa casa enorme e vendia pratas e folheados, do Padre Cruz, da cabeleireira que me produzia no melhor estilo Chitãozinho e Xororó e fazia o permanente no cabelo da minha mãe, do coreto e dos bailes de carnaval no URCA, o clube social da cidade.

Da roça, no entanto, lembro-me de pouca coisa. Justamente por isso há, inclusive, quem duvide de minhas raízes mineiras… E eu entendo. Durante os anos, desenvolvi minha personalidade cosmopolita. As tatuagens, que já têm mais de dois dígitos, e a total ausência de sotaque, exceto um “erre” puxado aqui ou alí, contribuem para tal conceito. Apesar disso, nunca vou esquecer quando, a bordo do fuscão, meu avô levou a gente pra conhecer seu cafezal e todo processo de produção do café que ele mantinha em sua fazenda, a “Canas do Reino”, anteriormente – e obviamente – um canavial.

Voltando ao café, no frio da serra, as folhas verdes daqueles arbustos se arrastavam pelo chão e guardavam entre elas os frutinhos vermelhos, coisa mais linda, que depois seriam colhidos, secos, torrados, moídos e ensacados. E é o cheiro do café moído e torrado na hora, presente em quase todas as casas mineiras, mais até que o supervalorizado pão de queijo, que faz parte de minha memória afetiva… Assim como o da mexerica comprada na beira da estrada e que não podia esperar chegar em casa para ser devorada.

Uma pena que, ao mudarmos para o Litoral Norte de São Paulo, as visitas a Minas ficaram mais escassas. Elas demoravam muito mais, eram mais caras e os interesses pré-adolescentes dos filhos da Dona Olimpia já eram outros. A última viagem que fiz à terra natal foi em junho de 2003, quando meu vozinho decidiu que já estava cansado demais para estar entre a gente e foi encontrar com a Vó Ina no céu.

Que o tempo não volta a gente sabe, que a gente muda, também. Agora, que não foi o jornalismo que me viciou em café, certeza, isso não foi mesmo. Pode ter incentivado, mas não foi a causa em si. E quando a cafeteira modernosa queima, te privando daquele que seria seu momento sagrado de resignação e encontro com o passado, só o que lhe resta é colocar água pra ferver e reativar o velho e bom coador de pano, pra lembrar, entre um gole e outro, daquilo que te tornou quem você é hoje.

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